domingo, 27 de dezembro de 2015

REFLEXÕES A PROPÓSITO DO ESCÂNDALO BANIF


REFLEXÕES A PROPÓSITO DO ESCÂNDALO BANIF

 

Os Portugueses, directa ou indirectamente, vão ser chamados a pagar alguns milhares de milhões de euros para evitar a falência do Banco Banif. E apesar deste enorme dispêndio, o banco não fica nas mãos do Estado mas, a troco duns 150 milhões de euros, vai parar a uma instituição bancária de capitais espanhóis, o Banco Santander Totta. E dizem que ainda houve muita sorte !

Isto dito desta maneira parece uma anedota de malucos ! Mas como as pessoas que tomaram as decisões que deram este resultado não são doidas, questionemos :

 

1. Porque não se deixou o Banif ir à falência ?

Resposta : porque isso implicaria a perda de milhares de postos de trabalho, a perda para os depositantes dos depósito acima de 100.000 € de parte do seu dinheiro , grande perturbação nas economias regionais da Madeira e dos Açores, mais algum descrédito para o, já desacreditado, digo eu,  nosso sistema financeiro e pagamento de parte das dívidas do Banif uma vez que o Estado detém cerca de 60% do capital.

Apreciação : do meu ponto de vista, argumentos atendíveis.

 

2. Porque não ficou o Estado Português na posse no Banif ?

Resposta : porque a Direcção Geral da Concorrência da União Europeia ( DGC ) não deixou, nem sequer que o Banif fosse absorvido pela Caixa Geral de Depósitos.

Apreciação : pareceu-me que as razões que estão na base da decisão da DGC não são nada convincentes.  Na realidade, se o Estado se pôde tornar o principal acionista do Banif  ( 60 % ), com uma injecção de dinheiro público em 2012, porque razão não pode ficar proprietário e é obrigado a vendê-lo, não com lucro mas com grande prejuízo, a um banco privado ? De certo que não haveria perigo para a concorrência inter-bancária se o Banif fosse incorporado na CGD

uma vez que não representa mais de 4% do sistema financeiro. Será que as regras da DGC se destinam a proteger os bancos em detrimento dos Estados e dos contribuintes?

 

3. Porque razão o governo anterior do PSD+CDS e o Bando de Portugal não batalharam devidamente para conseguir uma solução, em devido tempo, mais favorável ao Estado e deixaram a questão arrastar-se a um ponto em que já não havia prazo para negociações e em que o presente governo tinha de escolher entre duas alternativas, ambas más ?

Resposta : foram apresentadas várias explicações de acordo com a cor política, mas na generalidade pouco abonatórias do governo anterior e do BdeP.

Apreciação : Esperemos que a prevista Comissão de Inquérito Parlamentar ponha os pontos nos ii

 

4. Como foi possível a administração do Banif deixar chegar o banco ao ponto a que chegou ?

Resposta : Esperemos que a já citada Comissão de Inquérito também venha a esclarecer este assunto.

 

Este episódio é o quarto duma série de casos bancários que tem trazido abundantes prejuízos à generalidade dos portugueses, para evitar os prejuízos resultantes das respectivas falências.

Ou seja : quando os bancos dão lucros, os accionistas recebem os dividendos – e os gestores principais os bónus ; quando os bancos, devido a gestões deficientes ou dolosas, estão `beira do colapso, os portugueses são chamados a pagar.

Nestas condições, sabendo-se que instituições do tipo bancário ( não especulativo ) são necessárias ao funcionamento da economia, ocorre perguntar porque razão hão-se ser privadas e não públicas?

Se fossem públicas, não só os prejuízos ficariam para os portugueses, mas também os lucros.

Mas assim o Estado teria de gastar dinheiro a investir em bancos. Pois tinha, mas recebia lucros, ou benefícios de outra ordem para o desenvolvimento económico Porque se o negócio bancário é bom para os privados que sabem gerir, porque não há-de ser bom para o Estado ?

Para os privados, ficariam os bancos de investimento especulativo , sendo os depositantes e os accionistas avisados, em letras gordas, que em caso de falência não haveria mãozinha do Estado para os proteger. E os trabalhadores que quisessem pertencer aos quadros de tais bancos também seriam avisados que em caso de colapso, só poderiam contar com o subsídio de desemprego.

Claro que este raciocínio vai contra toda a tradição histórica ( talvez mesmo bíblica ) da existência de banqueiros privados num universo não comunista, mas creio que vale a pena ser discutido mais vezes.

 

Portanto na situação actual defendo : a separação da banca dita de retalho da banca especulativa; o conhecimento público, através do BdeP, das transferências bancárias para o estrangeiro; o impedimento de o fazer para bancos ou instituições que não tenham acordos de troca de informações com o BdeP ( ao estilo da leis dos EUA ); o fim dos off-shores que escondem informações; a possibilidade de os Estados nacionalizarem bancos defeituosos sem serem obrigados a revender com grandes perdas;  uma análise cuidadosa antes da concessão de crédito ; uma regulamentação rigorosa do sistema financeiro.

 

27 DEZ 2015