terça-feira, 24 de maio de 2016

R+C CONTRA P+H

R+C  CONTRA  P+H

A seguir ao inferno da 2ª Guerra Mundial, a Europa Ocidental viveu anos extraordinários de reconstrução do que tinha sido destruído, de diminuição das desigualdades entre os cidadãos , de criação do conjunto dos direitos sociais a que chamamos estado social, da criação duma união entre os povos que preservasse a democracia e evitasse conflitos armados. Simultaneamente, ou talvez como condição sine qua non, os partidos socialistas/sociais democratas e cristãos-democratas deram as mãos, a taxa sobre rendimentos individuais atingiu valores de 70 ou 80% para as fracções mais elevadas, as empresas pagavam impostos elevados – e não havia competição fiscal entre as nações - , os direitos dos trabalhadores eram aceites e respeitados, e os movimentos e a utilização de capitais eram bem regulamentados.
Mas os detentores de capitais não dormiam e aproveitaram as crises que foram que foram surgindo, como p. ex. a do preço do petróleo bruto no início da década de 70 do século XX, para lançarem as suas campanhas contra a existência do estado social que originava  impostos elevados para os ricos , contra a protecção, alegadamente exagerada, dos trabalhadores que dificultava o investimento e consequente redução do desemprego, contra a regulação dos sectores bancários que, diziam,  era um impedimento às melhores ( para os detentores ) aplicações de capitais,   etc., e assim justificarem a procura de alterações legislativas que lhes proporcionassem lucros mais abundantes e com menos responsabilidades.
Estas ideias, também partilhadas por economistas adeptos da absoluta liberdade de funcionamento dos mercados como factor do equilíbrio económico ( muito mais preocupados com os mercados do que com as pessoas de carne e osso, certamente porque não passavam dificuldades ) encontraram eco e realização prática nas pessoas do Sr. Reagan ( Presidente dos Estados Unidos de 1980 a 1988 ) e da Srª Thatcher ( PM do Reino Unido de 1979 a 1990 ). Estes Srs. reduziram os impostos individuais mais altos e os das empresas, desregularam o sector bancário, atacaram fortemente os direitos dos trabalhadores, dando origem a um progressivo aumento das desigualdades entre os cidadãos ( com o empobrecimento dos mais pobres e o enriquecimento dos mais ricos ) e não evitando as crises económicas dos anos subsequentes.
O mundo ficou assim dividido em dois grandes grupos : o dos R+C e o dos P+H.
O primeiro é constituído pelos Ricos e pelos Capturados. Os Ricos são os detentores de capitais que querem pagar um imposto mínimo ( ou mesmo não pagar ) e movimentar e aplicar os seus capitais em completa liberdade. Os Capturados são aqueles que por ideologia ou interesse seguem os primeiros e estão dispostos a fazer os possíveis para lhes manter ou aumentar os lucros, sem se importarem com as consequências sociais resultantes. Estão entre estes,  os políticos que governam os países dominantes na União Europeia e no Euro-Grupo, o conjunto dos investidores + empregadores + administradores de empresas, salvo honrosas excepções, os proprietários dos meios de comunicação social, estes também com raras e honrosas excepções, um certo número de economistas, de comentadores, de articulistas e também empregados por conta de outrem e ainda chefes políticos que se consideram, sem o serem, socialistas ou sociais-democratas
O segundo grupo é composto pelos Pobres e pelos Humanistas. Pobres são uma designação genérica para aqueles que vivem do seu trabalho ou de parcas rendas ou ainda dos que vivem da solidariedade dos seus concidadãos. Humanistas são aqueles que, podendo ter rendimentos acima da média ou serem empregadores ou mesmo investidores, pensam que todos sem excepção têm direito aos benefícios do progresso, que as desigualdades económico-sociais devem diminuir, que o estado social é uma das grandes conquistas da civilização, que os bancos devem ser fortemente regulados, que os capitais devem ser usados para satisfazer necessidades das pessoas e não para especulação . Numa frase única  : são todos aqueles que pensam que, efectivamente, as pessoas são mais importantes que o dinheiro.                   Este grupo é sem dúvida numericamente maioritário
A grande batalha ideológica ou cultural a travar é pois convencer os que não são Ricos, mas que nas eleições democráticas, votam ao lado daqueles, da bondade das ideias defendidas pelo grupo P+H, que tanto a melhoria dos salários como a redução das desigualdades são benéficas para o desenvolvimento económico ( como economistas de renome defendem ), que o estado social pode e deve ser mantido, que a regulação apertada dos bancos, e em particular o regresso à separação entre bancos comerciais e bancos de investimento será um contributo para evitar futuras crises bancárias, que a limitação prática dos ganhos dos gestores de topo ( e também dos accionistas ), através duma pesada tributação das fracções superiores dos rendimentos pessoais. é uma defesa contra manifestações de ganância, que foram uma das causas da desgraçada crise dos “sub-prime”, e contra a descapitalizações das empresas ( a qual como se sabe dificulta ou impede investimentos futuros ).
É necessário pois que nas eleições em toda a Europa seja eleita uma maioria de Humanistas e não de Capturados para que o nosso Continente possa voltar aos tempos gloriosos do pós-guerra, apesar da globalização descontrolada.

24 MAI 2016