R+C CONTRA P+H
A seguir ao
inferno da 2ª Guerra Mundial, a Europa Ocidental viveu anos extraordinários de
reconstrução do que tinha sido destruído, de diminuição das desigualdades entre
os cidadãos , de criação do conjunto dos direitos sociais a que chamamos estado
social, da criação duma união entre os povos que preservasse a democracia e
evitasse conflitos armados. Simultaneamente, ou talvez como condição sine qua non, os partidos
socialistas/sociais democratas e cristãos-democratas deram as mãos, a taxa
sobre rendimentos individuais atingiu valores de 70 ou 80% para as fracções
mais elevadas, as empresas pagavam impostos elevados – e não havia competição
fiscal entre as nações - , os direitos dos trabalhadores eram aceites e
respeitados, e os movimentos e a utilização de capitais eram bem
regulamentados.
Mas os
detentores de capitais não dormiam e aproveitaram as crises que foram que foram
surgindo, como p. ex. a do preço do petróleo bruto no início da década de 70 do
século XX, para lançarem as suas campanhas contra a existência do estado social
que originava impostos elevados para os
ricos , contra a protecção, alegadamente exagerada, dos trabalhadores que
dificultava o investimento e consequente redução do desemprego, contra a
regulação dos sectores bancários que, diziam, era um impedimento às melhores ( para os
detentores ) aplicações de capitais, etc.,
e assim justificarem a procura de alterações legislativas que lhes
proporcionassem lucros mais abundantes e com menos responsabilidades.
Estas ideias,
também partilhadas por economistas adeptos da absoluta liberdade de
funcionamento dos mercados como factor do equilíbrio económico ( muito mais
preocupados com os mercados do que com as pessoas de carne e osso, certamente
porque não passavam dificuldades ) encontraram eco e realização prática nas
pessoas do Sr. Reagan ( Presidente dos Estados Unidos de 1980 a 1988 ) e da Srª
Thatcher ( PM do Reino Unido de 1979 a 1990 ). Estes Srs. reduziram os impostos
individuais mais altos e os das empresas, desregularam o sector bancário,
atacaram fortemente os direitos dos trabalhadores, dando origem a um
progressivo aumento das desigualdades entre os cidadãos ( com o empobrecimento
dos mais pobres e o enriquecimento dos mais ricos ) e não evitando as crises económicas
dos anos subsequentes.
O mundo
ficou assim dividido em dois grandes grupos : o dos R+C e o dos P+H.
O primeiro é
constituído pelos Ricos e pelos Capturados. Os Ricos são os detentores de
capitais que querem pagar um imposto mínimo ( ou mesmo não pagar ) e movimentar
e aplicar os seus capitais em completa liberdade. Os Capturados são aqueles que
por ideologia ou interesse seguem os primeiros e estão dispostos a fazer os
possíveis para lhes manter ou aumentar os lucros, sem se importarem com as consequências
sociais resultantes. Estão entre estes, os políticos que governam os países dominantes
na União Europeia e no Euro-Grupo, o conjunto dos investidores + empregadores +
administradores de empresas, salvo honrosas excepções, os proprietários dos meios
de comunicação social, estes também com raras e honrosas excepções, um certo
número de economistas, de comentadores, de articulistas e também empregados por
conta de outrem e ainda chefes políticos que se consideram, sem o serem,
socialistas ou sociais-democratas
O segundo
grupo é composto pelos Pobres e pelos Humanistas. Pobres são uma designação
genérica para aqueles que vivem do seu trabalho ou de parcas rendas ou ainda
dos que vivem da solidariedade dos seus concidadãos. Humanistas são aqueles que,
podendo ter rendimentos acima da média ou serem empregadores ou mesmo
investidores, pensam que todos sem excepção têm direito aos benefícios do
progresso, que as desigualdades económico-sociais devem diminuir, que o estado
social é uma das grandes conquistas da civilização, que os bancos devem ser
fortemente regulados, que os capitais devem ser usados para satisfazer
necessidades das pessoas e não para especulação . Numa frase única : são todos aqueles que pensam que,
efectivamente, as pessoas são mais importantes que o dinheiro. Este grupo é sem dúvida
numericamente maioritário
A grande batalha
ideológica ou cultural a travar é pois convencer os que não são Ricos, mas que
nas eleições democráticas, votam ao lado daqueles, da bondade das ideias
defendidas pelo grupo P+H, que tanto a melhoria dos salários como a redução das
desigualdades são benéficas para o desenvolvimento económico ( como economistas
de renome defendem ), que o estado social pode e deve ser mantido, que a regulação
apertada dos bancos, e em particular o regresso à separação entre bancos
comerciais e bancos de investimento será um contributo para evitar futuras
crises bancárias, que a limitação prática dos ganhos dos gestores de topo ( e
também dos accionistas ), através duma pesada tributação das fracções
superiores dos rendimentos pessoais. é uma defesa contra manifestações de
ganância, que foram uma das causas da desgraçada crise dos “sub-prime”, e
contra a descapitalizações das empresas ( a qual como se sabe dificulta ou impede
investimentos futuros ).
É necessário
pois que nas eleições em toda a Europa seja eleita uma maioria de Humanistas e
não de Capturados para que o nosso Continente possa voltar aos tempos gloriosos
do pós-guerra, apesar da globalização descontrolada.
24 MAI 2016