quinta-feira, 3 de março de 2016

SOBRE O RENDIMENTO DAS PESSOAS E O BES




O senhor Martim Figueiredo na sua crónica escrita no semanário Expresso de 27/2/2016, a propósito da relativa estagnação da economia na Europa, trouxe a público  que  há “ vozes respeitáveis que pedem sem rodeios o chamado dinheiro de helicóptero (sic)”, uma ideia original do economista Milton Friedman, salvo erro, e que consiste em dar directamente dinheiro às pessoas para elas gastarem. O interessante é que estas ideias – certamente por coincidência - estão alinhadas com a decisão de Governo Português de repor os rendimentos que tinham sido cortados aos funcionários públicas e aos reformados e de repor também os níveis das prestações sociais, muito reduzidos pelo governo do PSD+CDS. Ou seja de melhorar os rendimentos dos mais necessitados

Sabendo-se que nas últimas décadas, nas chamadas economias ocidentais, tem havido uma sistemática transferência de rendimentos dos mais pobres para os mais ricos, e que estes  não conseguem gastar tudo o que recebem –  colocam os seus excedentes p. ex. em fundos especulativos – não admira que a procura nesses países ( incluindo Portugal ) tenha diminuído e a economia abrandado para valores considerados preocupantes. Evidentemente que, no nosso país, as pessoas a contemplar com a dádiva, teriam de ser as mais necessitadas e as que não sendo das mais necessitadas se comprometessem a gastar o cheque recebido em produtos ou serviços de origem nacional.

Estas considerações trouxeram-me à mente uma questão que não sei se será original mas que vou expô-la : que teria sucedido à nossa economia se o fundo bancário, garantido pelo Estado, em vez de ter aplicado os 3.900 milhões de € para resgatar o BES, tivesse entregue o dinheiro aos devedores para pagarem as dívidas ao dito BES ? Dar assim o dinheiro de mão beijada ? Não exactamente. No caso das pessoas que não podiam pagar a prestação do empréstimo contraído para a compra da casa, ou dum terreno, ou talvez mesmo dum carro, o fundo ficaria co-proprietário do bem, na parte alíquota do capital comparticipado. Milhares de pessoas não teriam perdido a sua habitação e o capital já empregue na compra desta, e a desgraça não teria atingido tantas famílias. Quando as pessoas voltassem a ter condições para pagar a prestação bancária começariam também a pagar o dinheiro emprestado pelo fundo. E se resolvessem vender o bem, o fundo receberia a sua quota parte. No caso de empresas devedoras, uma análise económica decidiria se seriam ou não viáveis. Se fossem, o fundo entregava-lhes o dinheiro necessário e ficaria sócio. Receberia o dinheiro à medida que a empresa fosse recuperando e tendo lucros.

Não sei se esta ideia salvaria o BES da bancarrota sem necessidade de mais capital público ou duma venda desastrosa a terceiros com perda de dinheiro para os contribuintes, pois não tenho nem conhecimentos de finanças nem elementos para fazer uma simulação, mas que teria salvo muita gente, teria. Não quero incluir aqui os antigos donos e administradores do BES que, pela sua actuação, não mereciam ter sido salvos. Antes pelo contrário.

Não haverá entre os nossos economistas/financeiros alguém queira fazer os cálculos para avaliar a bondade da hipótese?
3 MAR 2016