O senhor Martim Figueiredo na sua crónica escrita no
semanário Expresso de 27/2/2016, a propósito da relativa estagnação da economia
na Europa, trouxe a público que há “ vozes respeitáveis que pedem sem rodeios
o chamado dinheiro de helicóptero (sic)”, uma ideia original do economista
Milton Friedman, salvo erro, e que consiste em dar directamente dinheiro às
pessoas para elas gastarem. O interessante é que estas ideias – certamente por
coincidência - estão alinhadas com a decisão de Governo Português de repor os
rendimentos que tinham sido cortados aos funcionários públicas e aos reformados e de
repor também os níveis das prestações sociais, muito reduzidos pelo governo do
PSD+CDS. Ou seja de melhorar os rendimentos dos mais necessitados
Sabendo-se que nas últimas décadas, nas chamadas economias
ocidentais, tem havido uma sistemática transferência de rendimentos dos mais
pobres para os mais ricos, e que estes não
conseguem gastar tudo o que recebem – colocam os seus excedentes p. ex. em fundos
especulativos – não admira que a procura nesses países ( incluindo Portugal )
tenha diminuído e a economia abrandado para valores considerados preocupantes.
Evidentemente que, no nosso país, as pessoas a contemplar com a dádiva, teriam
de ser as mais necessitadas e as que não sendo das mais necessitadas se
comprometessem a gastar o cheque recebido em produtos ou serviços de origem
nacional.
Estas considerações trouxeram-me à mente uma questão que não
sei se será original mas que vou expô-la : que teria sucedido à nossa economia
se o fundo bancário, garantido pelo Estado, em vez de ter aplicado os 3.900
milhões de € para resgatar o BES, tivesse entregue o dinheiro aos devedores
para pagarem as dívidas ao dito BES ? Dar assim o dinheiro de mão beijada ? Não
exactamente. No caso das pessoas que não podiam pagar a prestação do empréstimo
contraído para a compra da casa, ou dum terreno, ou talvez mesmo dum carro, o
fundo ficaria co-proprietário do bem, na parte alíquota do capital comparticipado.
Milhares de pessoas não teriam perdido a sua habitação e o capital já empregue
na compra desta, e a desgraça não teria atingido tantas famílias. Quando as
pessoas voltassem a ter condições para pagar a prestação bancária começariam
também a pagar o dinheiro emprestado pelo fundo. E se resolvessem vender o bem,
o fundo receberia a sua quota parte. No caso de empresas devedoras, uma análise
económica decidiria se seriam ou não viáveis. Se fossem, o fundo entregava-lhes
o dinheiro necessário e ficaria sócio. Receberia o dinheiro à medida que a
empresa fosse recuperando e tendo lucros.
Não sei se esta ideia salvaria o BES da bancarrota sem
necessidade de mais capital público ou duma venda desastrosa a terceiros com
perda de dinheiro para os contribuintes, pois não tenho nem conhecimentos de
finanças nem elementos para fazer uma simulação, mas que teria salvo muita
gente, teria. Não quero incluir aqui os antigos donos e administradores do BES
que, pela sua actuação, não mereciam ter sido salvos. Antes pelo contrário.
Não haverá entre os nossos economistas/financeiros alguém
queira fazer os cálculos para avaliar a bondade da hipótese?
3 MAR 2016
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