sábado, 16 de julho de 2016

COMBATE AOS PARAÍSOS FISCAIS

COMBATE AOS PARAÍSOS FISCAIS

Os off-shores  ou paraísos fiscais são uma das vergonhas da nossa era. Eles possibilitam a fraude fiscal e a lavagem de dinheiro proveniente de actividades ilícitas ou mesmo criminosas. Toda a gente, governantes, políticos, cidadãos contribuintes e não contribuintes, sabe disso. E todavia pouco ou nada se faz para extirpar o tumor.                      É possível extirpá-lo ou não ?

Acabei de ler o livro “ A Riqueza Oculta das Nações” do economista francês Gabriel Zucman, ed. Círculo dos Leitores, e fiquei muito satisfeito pela demonstração que é feita não só da possibilidade como da exequibilidade de os reduzir à impotência – desde que haja vontade política.
Para vos dar uma ideia da extensão do problema, apresento a seguir alguns dados presentes no livro e referentes a 2013:                                                                                                                                   1.  8% do património financeiro mundial, ou seja, 8,6 milhões de milhões de Euros está colocado em off-shores                                                                                                                                           2. 12% do património financeiro das famílias europeias está em paraísos fiscais ( 6% na Suíça e 6% noutros locais ).                                                                                                                                        3. Isto significa que na Suíça são geridos 1 milhão de milhões de fundos europeus, dos quais 200.000 milhões oriundos da Alemanha, 180.000 da França, 30.000 milhões de PORTUGAL,     etc.                                                                                                                                                          4. O autor do livro calculou que, sem a evasão fiscal possibilitada pelas contas na Suíça, a dívida pública francesa, em 2013, seria apenas de 70% do PIB e não de 94% do PIB como se verificou !!!

Nestas circunstância, venho                                                                                                                   
A) fazer um desafio aos Economistas do meu País, que se dedicam a produzir opinião nos meios de comunicação social, para investigarem quanto perde Portugal pelo facto de haver muito dinheiro de portugueses ( com p pequeno ) colocado em off-shores.

B)  resumir como o autor do livro mostra que é possível, desde que os governos dos países lesados o queiram, acabar com os paraísos fiscais.
Eis o resumo das acções a levar a cabo
1º ) Criar sanções financeiras e/ou comerciais para punir os off-shores que se recusam, por acção ou omissão, a colaborar na informação automática aos países da nacionalidade dos depositantes de fundos, e dos lucros  provenientes sua aplicação. Essas sanções teriam a forma de taxas alfandegárias extra aos produtos importados dos países paraísos fiscais de forma a obter um rendimento equivalente à perda de receita derivada da não taxação dos fundos desviados para esses paraísos. A solução implica que os países lesados se coliguem numa acção comum contra o “inimigo”. Por exemplo, diz o autor, contra a Suíça bastaria apenas uma coligação da Alemanha, França e Itália ; contra Hong Kong, uma coligação dos EUA, UK, Alemanha e França ; etc.   A perda das exportações traria a rendição do “inimigo”.                                                                                                                              Também segundo o autor, este procedimento não infringe as regras da Organização Mundial do Comércio                                                                                                                                          NOTA : Esta solução não poderia ser aplicada ao Luxemburgo por este ser membro da União Europeia, mas o Sr. Zucman também apresenta solução para este caso.
2º)  Para ser possível aos países verificarem se os paraísos fiscais estão a colaborar honestamente ou não, será necessário criar um cadastro financeiro mundial, sob a égide do FMI, onde todas as acções, obrigações e participações em fundos de investimento, bem como os seus verdadeiros proprietários ( e não apenas sociedades de fechada ), estejam registados. Isto é fundamental também na luta contra o branqueamento de capitais e o terrorismo.
3º) Instituição dum imposto sobre capitais. O autor propõe que o FMI retenha todos os anos, por conta dos países de origem, 2% sobre o valor dos títulos financeiros registados. Para recuperarem a taxa retida, os detentores dos títulos não terão mais que, na declaração de impostos a apresentar no seu país, fazer a sua referência. Então, de acordo com a respectiva legislação, a autoridade tributária devolveria ao contribuinte a totalidade ou parte da taxa retida. A grande vantagem desta ideia é que as sociedades de fachada não poderiam recuperar o dinheiro da taxa : só os detentores individuais o poderiam fazer através da declaração de impostos.
4º ). Como tratar o caso do Luxemburgo. Sempre segundo o autor, o Luxemburgo não é uma nação, mas “um a plataforma artificial para a indústria financeira mundial”. O autor demonstra porque faz estas afirmações e propõe que União Europeia faça um ultimato ao Grão-Ducado : ou colaboração plena no combate à fraude e à evasão fiscal ou exclusão da EU.
5º) O caso das multinacionais. Toda a gente sabe que as multinacionais reduzem muito o pagamento de impostos ao transferirem lucros ou despesas dum país para outro e ao escolherem para a sua sede um local onde sejam menos taxados ( estão a lembrar-se da razão porque as empresas do PSI 20 português têm as suas sedes na Holanda ? Pois é ! ) . A solução apontada pelo autor do livro consiste em taxar os proventos mundiais das multinacionais que não podem ser disfarçados e distribui-los pelos estados onde foram conseguidos. A ideia não é nova e está em vigor nos EUA no que respeita à distribuição do imposto total das empresas pelos diferentes estados federais. E na Europa, a Comissão Europeia, através da directiva ACCIS, defende uma” fórmula de repartição simples, na qual as vendas, a massa salarial e o capital contam cada um com um terço.” (SIC livro ). O grande problema é que directiva é opcional : cada empresa pode escolher permanecer sujeita aos impostos nacionais a que está sujeita ! Só quando a directiva se tornar obrigatória, a justiça fiscal terá lugar!

Cabe aqui fazer novo desafio aos Economistas do meu País, que se dedicam a produzir opinião nos meios de comunicação social, para investigarem quanto perde Portugal pelo facto de haver muitas empresas a ganhar dinheiro em Portugal mas com sedes em países que se comportam como verdadeiros paraísos fiscais.

Pelo que se pode concluir deste texto, baseado no livro “A RIQUEZA OCULTA DAS NAÇÕES” , como inicialmente foi dito, a luta contra os malefícios dos paraísos fiscais é possível e só depende da acção dos governos democráticos. Porem, enquanto a ideologia dominante de muitos destes  governos for a dos ricos, quilo-ricos , mega-ricos ou giga-ricos nada, alem da proclamação de boas intenções destinadas ao falhanço, poderá ser feito. Por isso a campanha ideológica a promover é a de convencer o cidadão comum que a batalha pela manutenção do estado social e a luta contra as desigualdades económicas passa também por obrigar pessoas e empresas a pagarem os seus impostos de acordo com a lei do seu país  - e portanto que devem  eleger governos que dem garantias de assim fazerem .

Lisboa, 16 de Julho de 2016

Sem comentários:

Enviar um comentário